Top 20 – Circuito Nacional em 2013

Tornou-se prática comum reclamar do atraso e da falta de espaço em nosso circuito comercial para filmes alheios ao eixo de distribuição opressivo comandando pelas majores norte-americanas, mas é necessário destacar que 2013 foi especialmente feliz no número de estreias interessantes no país, mesmo com alcance ainda limitado (apenas capitais, salas geralmente pequenas, período de exibição curto e divulgação incipiente). Particularmente acredito na formação de público e no boca a boca como gestos que podem auxiliar os distribuidores e as salas realmente interessado(a)s em promover cinema no Brasil, e apesar de a maioria destes filmes não estarem mais em cartaz eu também considero a lista uma possibilidade de lembrar que existem muitas manifestações cinéfilas emergentes em círculos específicos que podem, com o tempo, crescer e fortalecer a distribuição para fora do nicho de festivais de cinema, tanto no que diz respeito ao cinema nacional (para o qual há uma lacuna ainda maior, e a questão é mais complexa) quanto internacional. Se 2013 foi bom e a pulsão cinéfila dentro do circuito parece ter crescido consideravelmente nele em relação a 2011/12, 2014 pode naturalmente ser melhor havendo um grupo maior – ou mais engajado – de cinéfilos que buscam algo além de fast food e paquera na sala de cinema. Abaixo seguem 20 filmes que fizeram um bem danado ao meu olhar, mesmo muitos ainda da sala de casa, e que puderam ser compartilhados por outros olhares na grande sala escura durante o ano.

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20. As Horas Vulgares (idem, 2011), de Rodrigo de Oliveira e Vitor Graize

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19. Invocação do Mal (The Conjuring, 2012), de James Wan

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18. Bárbara (Barbara, 2012), de Cristian Petzhold

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17. Depois de Maio (Après Mai, 2012), de Olivier Assayas

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16. Era Uma Vez em Anatólia (Bir zamanlar Anadolu’da, 2011), de Nuri Bilge Ceylan

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15. Antes da Meia-Noite (Before Midnight, 2013), de Richard Linklater

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14. Blind Detective (Man Tam, 2013), de Johnnie To

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13. A Bela Que Dorme (Bella addormentata, 2012), de Marco Bellocchio

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12. Killer Joe – Matador de Aluguel (Killer Joe, 2011), de William Friedkin

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11. O Som ao Redor (idem, 2012), de Kleber Mendonça Filho

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10. Caverna dos Sonhos Esquecidos (Cave of Forgotten Dreams, 2010), de Werner Herzog

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9. Bastardos (Les Salauds, 2013), de Claire Denis

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8. Educação Sentimental (idem, 2013), de Júlio Bressane

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7. A Filha de Ninguém (Nugu-ui ttal-do anin Haewon, 2013), de Hong Sang-soo

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6. Um Estranho no Lago (L’Inconnu du Lac, 2013), de Alain Guiraudie

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5. O Estranho Caso de Angélica (idem, 2010), de Manoel de Oliveira

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4. A Cidade é uma só? (idem, 2012), de Adirley Queirós

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3. Vocês Ainda Não Viram Nada! (Vous n’avez encore rien vu, 2012), de Alain Resnais

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2. Crazy Horse (idem, 2011), de Frederick Wiseman

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1. Tabu (idem, 2012), de Miguel Gomes

Meu ano cinéfilo (2013)

Enquanto relembrava os filmes vistos para a lista de melhores do circuito brasileiro em 2013, que deve ser publicada em janeiro no Cineplayers, organizei como exercício uma seleção dos 25 filmes de fora dele que mais me encantaram no ano. Valiam filmes de qualquer período histórico, desde que não tivessem estreado oficialmente nos cinemas brasileiros este ano e fossem inéditos para mim (ou seja, não contavam revisões). O recorte é amplo e difuso demais pra lista ter qualquer sentido que não unicamente o de apresentar aos leitores um pouco do que foi meu ano cinéfilo, valendo como recomendação a quem ainda não viu algum dos filmes.

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25. A Grande Testemunha (Au hasard Balthazar, 1966), de Robert Bresson

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24. Céu e Inferno (Tengoku to jigoku, 1963), de Akira Kurosawa

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23. Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer (Twin Peaks: Fire Walk With Me, 1992), de David Lynch

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22. O Sacrifício (Offret, 1986), de Andrei Tarkovsky

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21. Onibaba – A Mulher Demônio (Onibaba), de Kaneto Shindô

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20. A Dama de Preto (Park Row, 1952), de Samuel Fuller

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19. Bom Dia (Ohayo, 1959), de Yasujiro Ozu

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18. A Carruagem Fantasma (Körkarlen, 1921), de Victor Sjöström

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17. Vontade Indômita (The Fountainhead, 1949), de King Vidor

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16. Juventude em Marcha (idem, 2006), de Pedro Costa

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15. Rio Violento (Wild River, 1960), de Elia Kazan

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14. Um Alguém Apaixonado (Like Someone in Love, 2012), de Abbas Kiarostami

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13. Fúria Sanguinária (White Heat, 1949), de Raoul Walsh

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12. Aos Nossos Amores (À nos amours, 1983), de Maurice Pialat

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11. O Terceiro Tiro (The Trouble With Harry, 1955), de Alfred Hitchcock

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10. Coisas Secretas (Chóses Secrètes, 2002), de Jean-Claude Brisseau

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9. Ciao Maschio (idem, 1978), de Marco Ferreri

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8. Desejo Profano (Akai Satsui, 1964), de Shohei Imamura

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7. A Imigrante (The Immigrant, 2013), de James Gray

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6. Narciso Negro (Black Narcissus, 1947), de Michael Powell e Emeric Pressburger

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5. O Gato Preto (Yabu no naka no kuroneko, 1968), de Kaneto Shindô

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4. Traviata 53’ (idem, 1953), de Vittorio Cottafavi

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3. Van Gogh (idem, 1991), de Maurice Pialat

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2. Céline & Julie Vão de Barco (Céline et Julie vont en bateau, 1974), de Jacques Rivette

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1. A Mulher do Lago (Onna no mizûmi, 1966), de Yoshishige Yoshida

Tabu (Miguel Gomes, 2012)

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117 réveillons foram celebrados desde que os Lumière apresentaram ao mundo, como costumava dizer Benjamin, a arte que justificaria a modernidade. Temos no cinema, desde então, uma testemunha incondicional da realidade e da imaginação, um museu contemporâneo, companheiro leal e legítimo do homem: nas suas imagens estabelecem-se laços de memória e de narração, de documentação, reflexão e ilusão, como numa extensão artificial da mente humana. Em um ano cuja indústria do cinema mostrou-se nostálgica com sua própria história, foi o português Miguel Gomes quem apresentou o filme que melhor soube lidar com essa relação. Através de um híbrido entre fábula e memória, sonho e narração, um truque fundamental nos desloca poeticamente do presente para um tempo perdido na história, seja dos personagens que filma, do contexto em que vivem (a Europa contemporânea, a África colonizada) ou do próprio cinema. A linguagem dos filmes mudos se projeta na narrativa através de fluxos de memória, numa experiência que contempla o que há de mais belo e trágico no olhar para o passado, devolvendo ao espectador o que nele existe de mais essencial: o esplendor de sensações carinhosamente preservadas, e que na memória e no cinema podem viver para sempre.

Vendredi Soir (Claire Denis, 2002)

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Noite de sexta chuvosa em Paris. A paralisação do transporte público deixa as ruas intrafegáveis, congestionadas por filas quilométricas de automóveis. Em torno deles circulam pessoas sem tempo ou disposição para trocar olhares – ou, em casos mais extremos, que tratam grosseiramente uma mulher segundos antes de acariciar seu cachorro. O colapso da modernidade emerge em Vendredi Soir neste ambiente inóspito em que uma senhora transita à procura de pulsação e oxigênio – uma Paris em clima de canção dark de synthpop, filmada com cores desbotadas, umidade e reflexos de néons publicitários. O abundante uso de closes sugere à personagem uma solitária clausura rompida apenas quando abandona as ruas da cidade para visitar um quarto de hotel barato com o desconhecido com quem flerta na rua. Não sabemos quem são, o que fazem, o que desejam ou esperam do outro. A Claire Denis interessam apenas a nudez, os beijos e corpos entrelaçados. É na vitalidade do orgasmo que o filme atinge seu clímax, e o que antes eram barreiras, restrições de campo na imagem, converte-se em intimidade e sorrisos. Pois, diante das distrações e dos obstáculos do novo mundo, é na fricção dos corpos nus que ainda experimentamos o mais legítimo gozo, momento em que gritos de desespero emudecem frente a um pequeno gemido de prazer.

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