Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941)

Ao falar de uma obra tão aclamada como Cidadão Kane, geralmente venerado como o melhor e mais revolucionário filme já feito, é preciso de cautela – algo tão importante quanto o respeito que deve-se ter pelo filme. O reconhecimento que o longa de estreia de Orson Welles recebeu com o passar dos anos transformou-o em uma peça histórica intocável, acima do bem e do mal, o que pode acabar limitando a discussão sobre ele. Mas acima do hiperbolismo que o envolve, é preciso reconhecer que Cidadão Kane de fato marca uma trangressão de formas de expressão, de narrativa e de linguagem audiovisual que determinou muito do que o cinema viria a apresentar anos após seu lançamento.
Ao equilibrar técnicas de romance literário com teatro e jornalismo, duas profissões pelas quais já havia transitado em seus parcos 26 anos de vida, Welles desmembraria o filme em um jogo propositalmente irregular de pontos de vista, de relatos e de memórias que fugiam completamente do padrão classicista de narração para trazer ao cinema americano uma nova dimensão de linguagem – tão assimilada por ele que se torna uma tarefa delicada mensurá-la. Assim o filme, que inicia com a morte de seu protagonista e a introdução de um mistério a ser desvendado sobre sua vida, se preocupa muito mais em questionar e desafiar o espectador do que em responder às perguntas que surgem ao longo de sua duração.
Por conta disso, não é difícil ler por aí ou ouvir de quem não está habituado a olhar filmes de sua época (1941) que Cidadão Kane é um filme “moderno”, apesar da idade. A excetuar o ritmo de encenação, o que se vê é um conto muito vivaz (e perfeitamente compatível com o cinema de hoje) de ascensão e declínio de um homem que, aos poucos, é reconstruído por um fluxo de imagens pescadas de diferentes pontos de vista, uma técnica que, mesmo tão copiada, segue impressionando pela habilidade de Welles em retratar seu personagem central, um magnata da comunicação egoísta e ambicioso, fugindo do registro conclusivo de sua personalidade para, ao contrário, apostar na incompletude deste registro.
O ousadia de Welles e a qualificação de seus parceiros, especialmente o fotógrafo Gregg Tolland, fez de Kane um filme revolucionário também esteticamente. A profundidade de campo, um dos conceitos básicos da concepção de uma imagem, ganhou nova amplitude com seus experimentos de luzes, lentes e ângulos – permitindo aos planos abrangerem várias ações simultâneas em pontos focais diferentes. A obsessão de Welles pela captura de imagens inusuais, perceptível em toda sua obra, trazia frescor ao filme e se somaria ao cuidado do diretor e de seu montador, Robert Wise, nas experimentações de fusão desses planos, o que fizeram de Cidadão Kane uma base para muitas das revoluções estéticas posteriores – como a Nouvelle Vague francesa.
Mas apesar das críticas elogiosas que recebeu à época, a perda do Oscar e o boicote de muitos componentes da indústria cinematográfica e da mídia fizeram com que uma áurea maldita circundasse Cidadão Kane e seu diretor. Com dificuldades para conseguir emprego em Hollywood, Welles passou o restante de sua vida filmando obras de baixo orçamento, participando de bicos como ator em outros filmes e, por muitos anos, tendo que se exilar dos Estados Unidos para poder filmar. Faria filmes melhores posteriormente, como A Marca da Maldade, sua obra-prima, e o brilhante jogo de encenação Verdades e Mentiras, um de seus últimos trabalhos, em 1973. Mas já em Cidadão Kane, marco inicial de sua imensurável contribuição ao cinema, deixava um legado maior do que a carreira inteira de muitos diretores consagrados por aí. Coisa digna de um verdadeiro gênio.
Texto escrito originalmente para o jornal O Nacional, de Passo Fundo-RS.
é, já escolhi um filme pro fim de semana…