Um Lugar Qualquer (Somewhere, 2010)

É difícil resistir a Um Lugar Qualquer, o novo filme de Sofia Coppola, que chega às locadoras neste mês de junho. Difícil porque, mais uma vez, a cineasta se consolida como uma bela encenadora, compondo planos e cenas tocantes e que emocionam de forma bastante singela, apenas registrando gestos e olhares com uma delicadeza afetuosa. Difícil também porque, por maior que seja a camisa de força criativa que envolve o filme, fortalece um plano de trabalho que iniciou em As Virgens Suicidas, primeiro filme da cineasta, e que encontrou seu expoente máximo na obra-prima Encontros e Desencontros, seu grande filme até então, acompanhando personagens que parecem não pertencer à realidade em que vivem.
A semelhança com Encontros e Desencontros é tanta que tem feito alguns torcerem o bico para o filme num geral, mesmo reconhecendo os trunfos dele. Mas prefiro racionalizar menos e aproveitar o que de melhor Coppola tem a oferecer com ele: uma viagem a um universo tão particular e minimalista de um personagem que, em sua ficção, parece dizer muito sobre o próprio sentimento da autora em relação à vida que leva, além de trazer uma retratação do tédio e da solidão enquanto condições humanas que fazem o filme se aproximar do cinema de outros cineastas clássicos como Michelangelo Antonioni – relação que mais tem sido feita com Um Lugar Qualquer, e que me parece bastante acertada.
Por outro lado, é verdade que há certo exagero na construção do tédio de seu protagonista (o que não acontece em Encontros e Desencontros, onde a insatisfação é muito mais palpável), um astro de Hollywood que vive preso a uma fortaleza cercada por muros de hoteis de luxo, piscinas, Ferraris, bons drinks e belas mulheres, mas que no final das contas encontra no sorriso de sua filha, com a qual não vive, seu verdadeiro recanto de felicidade. Ok, às vezes mais vale um abraço afetuoso a um maço de dólares, whisky e nudez, mas a escolha de registrar seu personagem como um robô enquanto participa de sua vida de artista acaba fazendo um contraponto estranho ao calor humano que emana das demais cenas – tudo bem estar insatisfeito, mas que também se aproveite um pouco as coisas boas que sua condição social oferece.
De qualquer forma, um problema menor diante de um filme tão bonito de se ver.
Texto escrito originalmente para o jornal O Nacional, de Passo Fundo-RS.
Daniel, daria para postar uma pequena critica do filme Dogville. Gostaria de saber o motivo de vc não gostar dele….