Vencer (Vincere, 2009)

Em uma das cenas-chave de Vencer, do veterano cineasta italiano Marco Bellocchio, vemos uma mulher assistir a O Garoto, de Charles Chaplin. Já estamos cientes de seu drama particular e do porquê daquele choro tão simbólico, que em um filme qualquer seria oprimido pela importância de tudo o que acontece ao seu redor – afinal, acompanhamos aqui nada menos que a ascensão do fascismo na Itália dos anos 30, na figura de seu íder Benito Mussolini.
Mas o discurso de Bellocchio se constroi duma forma diferente ao que vemos tradicionalmente no cinema histórico: ao invés dos grandes fatos e dos duelos verbais e físicos, o cineasta utiliza-se de uma radical estrutura narrativa que rasga o filme ao meio para pintar o horror da guerra através da gradativa anulação do componente humano de seus dois protagonistas – que, à sua maneira, vão transformando Vencer em um filme não de pessoas, mas de fantasmas e mitos.
Na primeira metade do filme, acompanhamos o romance de Mussolini, então revolucionário das ruas, com uma jovem italiana, Ida Dalser. Um amor intenso que se transforma em uma tragédia pessoal após a ascensão do homem ao poder e a gravidez da moça – que, para piorar, era um caso extra-conjugal de Mussolini, que ele decide esconder. Ela, perdidamente apaixonada, mesmo assim tem o bebê – que nomeia de Benito. Mas a vida de Ida, depois de ser deixada pelo então poderoso mito político, vira um dramático calvário por instituições para doentes mentais – afinal, quem naquele contexto ousaria dizer ser uma amante do líder Mussolini sem ser chamada de insana?
Vencer, na coragem de seu realizador, se torna ele próprio um filme de grandes decisões políticas. Bellocchio aproveita-se de diversas imagens de arquivo para compor uma primeira parte enervante, intensa; um cinema que pulsa da tela de forma impressionante. Mas é na metade final que vemos as reais consequências das opções narrativas do cineasta. Ao abandonar o “homem” Mussolini para tornar este nome basicamente uma essência mitológica, Bellocchio nos sentencia a acompanhar os esforços de uma mulher que, esmagada pela força da história e por seus próprios sentimentos, perde completamente a dignidade para viver.
O que faz lembrar da cena descrita lá no início do texto, e do peso que existe naquela imagem: a de um fantasma de carne e osso que se emociona ao ver um ícone de nossa arte humanista.
Bellocchio não poderia ser mais expressivo.
Texto escrito originalmente para o jornal O Nacional, de Passo Fundo-RS.
Daniel, desculpe falar da sua coleção de Blu-rays somente agora, mas como você citou Era uma vez na América, acho que vc já deve estar sabendo (pois, estou postando esse comentário bemmm atrasado!!),que os filhos de Leone compraram os direitos e irão lançar o filme na sua versão completa de 269 minutos, para o ano que vem no Festival de Cannes.
Portanto,se vc quiser a versão “uncut” hehehhehe, do filme vai ter que esperar(como eu) até 2012.